Distribuição de renda e patrimônio no IRPF

Evolução por centis, tipos de rendimento e unidades da Federação

Autor

Patrick Andrade

Data de Publicação

23 de setembro de 2026

1 Escopo

Este relatório descreve a distribuição dos rendimentos, do imposto e dos bens informados em declarações válidas do IRPF. Os dados não abrangem diretamente toda a população brasileira e uma declaração pode incluir titular, dependentes e declaração conjunta (Receita Federal do Brasil 2026a).

A série principal cobre 2017–2024 e utiliza RB4 como conceito central: rendimentos tributáveis, isentos e sujeitos à tributação exclusiva ou definitiva, retiradas as transferências patrimoniais. Todos os índices são aproximações construídas com dados agrupados.

NotaComo ler os gráficos

Os títulos resumem o padrão observado; eixos, período e unidade definem a medida. Legendas e notas registram escolhas de escala e ressalvas necessárias à comparação.

2 Evolução nacional

AvisoAtenção à comparação com 2018

O ano-calendário de 2018 aparece destacado em todas as séries nacionais. A causa está documentada em limitações: um único grupo, o top 0,01%, traz na fonte oficial valores muito acima dos anos vizinhos. Os números são preservados como publicados, e a seção de robustez mostra as mesmas séries calculadas sem esse grupo.

Série do Gini da renda declarada entre 2017 e 2024, em eixo de 0,52 a 0,70 com o primeiro e o último valor rotulados. A série parte de 0,577 em 2017, salta para 0,666 em 2018, retorna a 0,584 em 2019 e sobe gradualmente até 0,604 em 2024.

Gini agrupado da RB4 entre declarantes do IRPF, Brasil, anos-calendário 2017–2024 (índice de 0 a 1)

A faixa dos limites de Gastwirth está desenhada, mas é estreita demais para ser percebida: a distância entre o limite inferior e o superior do Gini é da ordem de 0,0002. A indeterminação que os dados agrupados deixam neste indicador é, portanto, muito menor que a variação entre anos.

Três séries de participação na renda declarada entre 2017 e 2024, todas partindo do zero no eixo vertical e rotuladas no fim da linha. O top 10% vai de 48,3% a 52,2%, o top 1% de 19,8% a 25,1% e o top 0,1% de 9,3% a 13,0%, com pico em 2018 nas três.

Participação dos grupos superiores na RB4 declarada, Brasil, anos-calendário 2017–2024 (%)

3 Tipos de rendimento e tributação

Os componentes permitem acompanhar rendimentos do trabalho e empresariais, aplicações financeiras, lucros e dividendos, rendimentos isentos, deduções e imposto devido. Comparações intertemporais somente são apresentadas quando o dicionário anual confirma equivalência semântica.

Quatro componentes de rendimento destacados, Brasil, 2024
Tipo de rendimento Valor (R$ de 2024) Participação no recorte
Lucros e dividendos R$ 813.217.757.768 19,5%
Rendimentos de aplicações financeiras R$ 209.620.869.033 5,0%
Rendimento de sócio ou titular do Simples R$ 301.918.512.051 7,2%
Rendimentos de pessoa jurídica pelo titular R$ 2.855.892.797.299 68,3%

A participação nesta tabela usa a soma dos quatro componentes exibidos como denominador, não toda a renda RB4.

3.1 Tributação efetiva

A alíquota efetiva média divide o imposto devido pela renda RB4 de cada grupo da distribuição. Como a RB4 inclui rendimentos isentos e sujeitos à tributação exclusiva, a curva mede a carga sobre a renda ampla declarada — leitura na linha de Gobetti e Orair (2017) sobre a progressividade limitada do IRPF no topo. Por serem médias de grupos, as alíquotas não captam a variação interna a cada grupo.

Curva da alíquota efetiva média ao longo dos percentis 1 a 99, começando no zero. A alíquota fica próxima de zero até o percentil 15, sobe de forma contínua a partir daí e chega a cerca de 9,9% no percentil 90, estabilizando até o percentil 99. Uma faixa sombreada marca o último 1% da distribuição, detalhado no gráfico seguinte.

Alíquota efetiva média por posição na distribuição da RB4, ano mais recente

O último por cento da distribuição concentra 20 grupos divulgados, que em escala de percentil ocupariam 1% da largura do gráfico acima. O gráfico seguinte dá a cada um desses grupos a mesma largura.

Alíquota efetiva média nos vinte grupos divulgados do topo da distribuição, cada um com a mesma largura no eixo horizontal. A alíquota parte de cerca de 7,4% no grupo que termina no percentil 99, cai de forma contínua ao longo dos décimos do top 1% e do top 0,1%, e chega a 0,9% no último grupo, o 0,01% mais rico.

Alíquota efetiva média nos vinte grupos disjuntos do topo, ano mais recente

A queda decorre da composição da renda no topo: rendimentos isentos e sujeitos à tributação exclusiva ganham peso conforme se sobe na distribuição, e a RB4 os inclui. É a leitura de Gobetti e Orair (2017) sobre a progressividade limitada do IRPF nos estratos superiores.

Quatro séries de alíquota efetiva média entre 2017 e 2024, com eixo vertical começando no zero e rótulos no fim de cada linha. A alíquota de todos os declarantes fica entre 5,6% e 6,0%, exceto em 2018. A do top 1% cai de 4,4% em 2017 para 3,0% em 2024, e a do top 0,1% permanece abaixo dela em todo o período.

Evolução da alíquota efetiva média por grupos da distribuição

4 Bens, direitos e dívidas

Nos arquivos ampliados, os bens são observados ao longo de uma distribuição ordenada por renda. Portanto, esta parte mede concentração patrimonial ao longo da distribuição de renda, não uma distribuição ordenada diretamente pelo patrimônio. A análise de desigualdade patrimonial em sentido estrito utiliza a coleção nacional específica de 2006–2021 (Receita Federal do Brasil 2026b).

Série do Gini patrimonial entre 2006 e 2021, em eixo que vai de 0,70 a 1,00. A linha permanece próxima de 0,86 durante todo o período, com variação total inferior a 0,03, e termina em 0,880 em 2021.

Gini patrimonial agrupado com ordenação direta por bens e direitos, Brasil, 2006–2021 (índice de 0 a 1)

Em dezesseis anos a série varia menos de 0,03 ponto de Gini, num patamar muito alto. A escolha de mostrar o eixo de 0,70 a 1,00, e não a faixa estreita ocupada pelos dados, é deliberada: numa escala ajustada ao dado, essa estabilidade apareceria como oscilação acentuada.

5 Estados e regiões

Cada UF é ordenada separadamente. Os indicadores estaduais comparam o formato interno das distribuições, e não pessoas situadas nos mesmos limites monetários nacionais.

A tabela reúne as UFs em ordem decrescente do Gini agrupado da RB4 no último ano. A renda média está em reais de 2024.

Indicadores estaduais da RB4, 2024, em ordem decrescente de Gini
UF Declarantes Renda média Gini Top 1%
São Paulo 13.058.035 R$ 154.061 0,636 29,7%
Mato Grosso 828.233 R$ 135.667 0,623 29,3%
Rio de Janeiro 3.657.486 R$ 155.791 0,610 22,8%
Paraná 2.818.144 R$ 135.801 0,600 25,0%
Amazonas 469.104 R$ 127.759 0,599 27,6%
Mato Grosso do Sul 614.917 R$ 131.698 0,596 24,2%
Goiás 1.395.550 R$ 124.307 0,586 23,3%
Distrito Federal 889.007 R$ 200.408 0,583 18,5%
Santa Catarina 2.153.309 R$ 132.756 0,583 24,1%
Espírito Santo 808.410 R$ 130.607 0,583 21,8%
Minas Gerais 4.131.037 R$ 130.762 0,583 22,7%
Rio Grande do Sul 2.863.637 R$ 136.268 0,581 22,5%
Ceará 958.715 R$ 125.127 0,580 22,0%
Pernambuco 1.104.466 R$ 127.098 0,580 22,5%
Bahia 1.654.662 R$ 117.931 0,566 20,3%
Sergipe 285.762 R$ 133.604 0,566 20,8%
Paraíba 459.384 R$ 123.089 0,558 19,2%
Alagoas 352.772 R$ 117.957 0,556 18,9%
Tocantins 248.973 R$ 113.347 0,555 18,6%
Rondônia 294.128 R$ 113.568 0,547 19,6%
Piauí 351.186 R$ 111.443 0,543 19,2%
Rio Grande do Norte 423.525 R$ 124.810 0,532 15,4%
Pará 893.539 R$ 110.247 0,522 15,9%
Maranhão 622.922 R$ 99.079 0,520 17,4%
Roraima 92.744 R$ 118.756 0,517 14,0%
Amapá 105.535 R$ 122.326 0,487 12,6%
Acre 105.148 R$ 113.198 0,484 13,8%

6 Robustez

Os indicadores centrais são recalculados sob conceitos alternativos de renda — RTB (rendimento tributável bruto), RB3, RB4 e RB5 — para verificar se as conclusões dependem da definição adotada. As séries abaixo usam as mesmas geografias, grupos e método de agrupamento; diferenças de nível refletem apenas o conceito de renda.

Três séries de Gini entre 2017 e 2024, uma por conceito de renda, rotuladas no fim da linha e em rampa de cor que segue o aninhamento dos conceitos. RB4 corre no patamar mais alto, RB3 logo abaixo e RTB no mais baixo, com trajetórias paralelas e o mesmo pico em 2018.

Gini agrupado nacional sob conceitos alternativos de renda

Três séries de participação do top 1% na renda entre 2017 e 2024, com eixo vertical a partir do zero. RB4 vai de 19,8% a 25,1%, RB3 acompanha um pouco abaixo e RTB permanece próxima de 11% em todo o período.

Participação do top 1% nacional sob conceitos alternativos de renda

A RB5 fica fora destes painéis: com o top 1% acima de 65%, ela comprimiria a variação de RTB, RB3 e RB4 — que é justamente o contraste em exame. Os valores da RB5 constam de distribution-metrics.parquet.

6.1 Dependência do grupo mais alto

Duas séries de Gini entre 2017 e 2024 na mesma escala. A série com todos os grupos apresenta pico acentuado em 2018; a série calculada sem o top 0,01% é visivelmente mais baixa e não apresenta esse pico, evoluindo de forma suave ao longo do período.

Gini agrupado da RB4 com e sem o grupo do top 0,01%

O grupo 120 reúne cerca de 4 mil declarações entre mais de 41 milhões. Retirá-lo desloca a série inteira e elimina o pico de 2018. Isso não indica erro de cálculo: mede quanto os indicadores de desigualdade dependem do estrato mais alto, e por que a comparação entre anos exige checar a estabilidade da fonte nesse grupo.

Como robustez adicional à ausência de informação intragrupo, o apêndice técnico reporta limites inferior e superior do Gini no espírito de Gastwirth (1972): o limite inferior corresponde ao trapézio sobre as médias de grupo e o superior à máxima desigualdade interna compatível com médias e limites monetários divulgados. Mudanças associadas a campos não comparáveis ou revisões da base são destacadas, nunca suavizadas automaticamente.

7 Limitações

  • Cobertura restrita aos declarantes do IRPF.
  • Possibilidade de declarações conjuntas e inclusão de dependentes.
  • Ausência de informação dentro dos grupos divulgados.
  • Base dinâmica, sujeita a retificações.
  • Valores patrimoniais declarados não equivalem necessariamente a preços de mercado.
  • Estudo descritivo, sem identificação causal.

8 Fontes

Os arquivos, URLs, datas de recuperação e hashes usados em cada versão ficam registrados no manifesto de fontes e no apêndice técnico.

Referências

Gastwirth, Joseph L. 1972. “The Estimation of the Lorenz Curve and Gini Index”. The Review of Economics and Statistics 54 (3): 306–16. https://doi.org/10.2307/1937992.
Gobetti, Sérgio Wulff, e Rodrigo Octávio Orair. 2017. “Taxation and Distribution of Income in Brazil: New Evidence from Personal Income Tax Data”. Brazilian Journal of Political Economy 37 (2): 267–86. https://doi.org/10.1590/0101-31572017v37n02a01.
Receita Federal do Brasil. 2026a. Distribuição de Renda por Centis — estudo ampliado 2017 a 2024. https://www.gov.br/receitafederal/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/estudos/distribuicao-da-renda/distribuicao-de-renda-por-centis-estudo-ampliado-2017-a-2023.
Receita Federal do Brasil. 2026b. Distribuição dos Bens e Direitos por Centis, 2006 a 2021. https://www.gov.br/receitafederal/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/estudos/distribuicao-da-renda.